domingo, 3 de abril de 2011

O Velho e a Campainha da Vida


Estou velho. Olhe para mim, veja a minha pele, está ressecada, tenho poucos e brancos cabelos. Minha vida já foi de muitas aventuras, de muitos amores, de muitas conquistas. Hoje vivo de lembranças, do passado, das glórias, dos fracassos. Sozinho e abandonado não tenho ninguém pra contar minhas histórias da época que eu era jovem. Me arrependo de ter afastado meus filhos, meus netos e todas as pessoas que queriam me amar. Fui tão duro que não deixei que me amassem. Fui tão amargo que os expulsei da minha vida sem dó.

Agora fico aqui, nessa sala na companhia da televisão e do meu copo de uísque. Justamente quando eu mais precisei de amor, mais afastei quem poderia me dar isso. Só reclamava, nunca elogiava ninguém, não ria, não brincava e assim fui afastando todos de mim. É triste ter tanta idade e poucos amigos. Apesar de tudo, não culpo minha família. Como eles me dariam amor se jamais demonstrei isso a eles? Não consigo encontrar uma solução pra resolver os meus problemas. Construí uma vida, um nome, um patrimônio e hoje estou sozinho. Não abro uma janela da minha casa há três dias. Estou ouvindo todos os discos que tenho guardado pra ver se me animo. Já tenho meu testamento escrito e não devo nada a ninguém.

Não consigo ver mais horizontes na minha vida nem admiro os arco-íris que a vida tenta me mostrar. Então vou em direção à minha gaveta chaveada e carrego com duas balas a solução dos meus problemas. Estava prestes a consumar quando de repente eu ouço a campainha tocar e vou atender. Minha neta, quinze anos recém completados. Trouxe em sua mão uma caixa com algumas fotografias da época em que a minha esposa era viva e a carregava no colo. Naquele exato momento me emocionei e abracei a minha neta como se fosse o último ser humano do mundo. Ali a minha vida se encheu de cores novamente e eu senti que alguém me amava. Ela ficou ali comigo conversando por horas e rimos um bocado. Ela abriu toda a casa e eu nunca tinha percebido a brisa de vento tão suntuosa que passava pela minha sala. E aquela casa se encheu de amor novamente.

Liguei pra todos os meus filhos e netos e preparei uma grande festa. Todos queriam saber o motivo e eu dizia de boca cheia que o motivo daquilo era o amor. Que o motivo da vida, dos seres humanos, dos animais da existência era apenas o amor. Foi isso que salvou a minha vida, que me fez acreditar novamente que sempre há tempo para o recomeço. O amor apareceu pra mim através de uma garota jovem e cheia de vida, que me fez retomar o sentido da vida. Espero que quando o amor chegar pra você em uma forma não muito convencional, faça questão de atender a campainha do seu coração e deixar que o amor entre novamente em sua vida.

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