sábado, 20 de abril de 2013

Jantar de Devaneios



           

             Enquanto te observava atentamente, focando todos os teus traços e jeitos, minha mente se propunha a criar um mundo totalmente diferente, uma vida em segundo plano, destacando meus desejos. Tua boca, olhos e cabelos me remetiam à uma beleza plenamente desenvolvida e sem dúvidas. Teu jeito, sabedoria e inteligência me conquistavam, fazendo-me suspirar a cada palavra que saía dos teus lábios. Fantasiava desde as coisas mais simples que uma criança pode imaginar até às mais ardentes projeções. Tudo em ti era belo e me encantava. Da posição da qual falavas eu era mero espectador. Minhas mãos ficam atadas à ética, mas minha mente entregue às ilusões e a um mundo inexistente. Penso que trabalhar com os anos seria a coisa mais propícia a se fazer, ainda assim não vejo grandes expectativas.
               
               Não absorvia uma palavra do teu discurso, pois minha mente ocupava-se criando algo além de um simples contato visual. Contato este que, ao ocorrer, era como uma injeção de adrenalina e uma de dopamina logo em seguida. De tantas injeções já estava anestesiado e meu corpo se debilitava cada vez mais. Entretanto, minha mente continuava a todo vapor produzindo fantasias. As ideias que circulavam pela minha massa cinzenta passavam pelo coração e transportavam um pouco de romantismo. Havia um estúdio de um filme de alto orçamento acima do meu pescoço.
                
               Via a cena de uma cozinha americana em um dia cinzento. Próximo às 18 horas, no forno de aço inoxidável embutido em um móvel de cor escura, assava um salmão, cujo tempero foi à base de limões e ervas. Uma tábua de frios se dispunha sobre uma bancada com uma pedra de mármore verde musgo. O piso de madeira era brilhante e vistoso. Uma garrafa de vinho branco assentava-se próximo aos frios e esta estava suada, pois havia saído da adega em menos de 20 minutos. A garrafa estava aberta. Duas taças de cristal, também suadas do frescor da bebida, completavam a cena dos acessórios daquela cozinha. Talvez não os deva chamar de acessórios, já que foram decisivos ao desenrolar da cena. Os personagens principais da história, relaxadamente sentados em duas banquetas com estofamento de couro em cor grafite, degustavam o vinho e os frios enquanto o falavam de política, economia e história. O sistema de som deixava tudo ainda mais leve. Faixas de Kenny G; Carly Simon e Fleetwood Mac alternavam-se no shuffle do aparelho. Os dois, praticamente atirados um em cima do outro, conversavam com olhares bobos, mas palavras concretas, já sabendo do desfecho final e belo da história.
               
             Levanto-me para conferir o Salmão e aproximo-me de ti antes de chegar ao forno. Encaixei meu queixo no teu ombro e murmurei no teu ouvido. Riste. Mordisquei a tua orelha e riste mais uma vez levando a tua macia mão até ali. O Salmão estava quase pronto. Desliguei o forno. Fui até a bancada, peguei minha taça de vinho e não sentei, apenas debrucei-me sobre o mármore. Foste até o forno para ver como estava o pescado. Fui atrás de ti, pé por pé, e te abracei pelas costas. Minhas mãos entrelaçaram-se sobre teu ventre e recostaste tua cabeça sobre meu ombro direito. Beijei-te no rosto e viraste para mim. Olhaste nos meus olhos e depois de um gole de vinho beijastes-me ternamente. Tiraste o peixe do forno e o comemos sobre a bancada, conversando e acabando com aquela garrafa de vinho.
               
           Depois da refeição, dirigimo-nos à sala, cujas luzes eram de baixa intensidade devido aos abajures que adornavam o ambiente. Sentamos no sofá que nos abraçou instantaneamente. 'That's The Way I've Always Heard It Should Be' estava tocando no aparelho de som. Abraçamo-nos mais uma vez, só que com muito mais intensidade. Podíamos ouvir a respiração um do outro, não muito calma, nem ofegante. Nossas bocas se encaixaram enquanto teu corpo se projetava contra o meu. Minha mão direita firme espalmada nas tuas costas te dava a segurança que precisavas. As roupas pareciam abandonar nosso corpo com uma facilidade tremenda, não sentíamos tais movimentos, apenas as carícias das nossas mãos, um no outro, enquanto esta parte do ritual findava-se. Nossos corpos se uniram e mantínhamos um contato visual de uma forte paixão. Apenas as sobrancelhas e a boca expressavam o prazer, enquanto os olhos falavam 'eu te amo'.
              
         O ápice do amor era realizado em minha mente enquanto te escutava falar sobre coisas aleatórias. O sonho acabou, a mente voltou ao seu mundo. O peixe queimou, o vinho esquentou, a conversa parou e o amor nem começou.