O sol se põe a
noite se aproxima. O dia cheio me faz olhar para o sol, lembrando-me do que
acabara de fazer e já pensando nas obrigações para o dia seguinte. Os olhos
ardendo castigados pelo vento seco do anoitecer dos dias de outono, me fazem
tirar os óculos e esfregar os olhos na tentativa inconsciente de apagar também
algumas lembranças.
Bem depois de
chegar em casa, próximo à meia-noite, quase sempre faço um chá para pensar
comigo. Capim-cidreira, Camomila, Erva-doce e Melissa são os meus preferidos.
Aqueço a água no fogão, despejo-a em uma caneca branca e mergulho o sachê de
chá. No ritual de imersão e emersão, a água, até então límpida, inodora e
insípida, começa a ficar turva, adquire cheiro e sabor. Algo parecido acontece
quando somos concebidos. O vapor foge da caneca e se desfaz poucos centímetros
acima, assim como muitas das lembranças superficiais que temos e que tendem a
desaparecer com o tempo. Contudo, temos um recurso que deve ser utilizado para
a completa infusão do chá, tampá-lo, para não deixar que o vapor se escape.
Então penso: com quantas lembranças costumamos fazer o mesmo. Aprisioná-las em
um lugar para depois consumi-las lentamente.
Gole por gole,
vou degustando a bebida. Na medida em que o meu corpo se aquece, meus
pensamentos ficam mais lentos, ainda mais reflexivos. Músicas vêm à minha
cabeça e eu crio trilhas sonoras para situações imaginárias. Próximo do último
gole, observo os resíduos no fundo da caneca, algo que não deveria consumir,
que irritaria minha garganta, que me perturbaria. A escolha de deixá-los ali é
única e somente minha.
Penso que se
mais pessoas tomassem chá, teríamos menos problemas, pois muitos queimariam a
língua por agir subitamente, sem pensar nas consequências. Outros, o deixariam
esfriar, por pensar demais e arriscar menos. Há quem goste de adicionar açúcar,
para tirar o gosto amargo da boca, ou até da vida. Tudo bem, um pouco de doçura
é bom pra todo mundo. Apesar de esquentar o corpo, o chá ajuda também a esfriar
a cabeça, ora, que interessante. Mais uma lição: nem tudo é o que parece. De
tudo na vida é possível tirar alguma conclusão, algo bom, um alerta.
Hora de ir pra
cama. O corpo relaxa, a mente, nem tanto. Ela continua tão agitada quanto a
água aquecida antes de ser chá. Sono profundo, só mesmo depois de algumas horas
de negociação. Minha mente já pede o chá do dia seguinte. Porém, ela esquece
que outros novos pensamentos a ocuparão até lá. Eis um ciclo, sem fim, sem
relaxamento total, com um possível colapso mental.