segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Memórias Póstumas do Patriarca


Eu era noivo quando te conheci. Tinha ao meu lado uma mulher que me amava e o nosso casamento estava pronto. Então apareceste em minha vida e arrebataste meu coração. Uma linda e jovem mulher, com pernas exuberantes e um rosto angelical. Desisti de tudo que tinha até então para ficar contigo, tornas-te a minha vida. Nos casamos e não tínhamos nada, apenas o nome da minha família que era de grande valor na região onde vivíamos. Meu pai, distinto cidadão, possuía vastas terras, porém não deu nada a mim, pois segundo ele, um homem tem que honrar-se e construir sua vida por conta.
 
Nos anos 30, éramos apenas dois jovens morando de favor na casa de parentes e que tinham de fazer sua vida, praticamente do nada. Por dezenas de vezes queria que fizéssemos um empréstimo, aproveitando-se assim, do nome que te dera, porém negavas. Dizias que jamais contrairias dívida alguma ao meu lado. Começamos então um comércio modesto que viria a crescer muito ao longo dos anos.
 
Tivemos nossa primeira filha em janeiro de 1950 e em dezembro do mesmo ano, nascera o nosso segundo filho. O comércio crescia, a família também e então nos mudamos para a capital. Com o lucro do 'Secos e Molhados' e das escaladas de bagre na costa de nossa cidade natal, construímos uma das primeiras casas de alvenaria do bairro, com dois pavimentos e paredes duplas de tijolo maciço. A fundação bem feita com pedras enormes davam à casa uma estrutura notória. As janelas estilo colonial e as portas de canela adornavam ainda mais o considerado palacete para a época e local. Uma cozinha de grande porte dividia espaço com uma sala com móveis estilo europeu. Um toalete com uma banheira branca enorme eram destaque na casa. No segundo pavimento, seis quartos eram acessados por uma escada central em madeira trabalhada. Os pisos São Tomé na calçada e a pintura branca davam o toque final. Habitação esta que, mais tarde, seria também a venda, um açougue, uma padaria, enfim. Mal posso esquecer do nosso Ford 29 e a F50, adorava esses carros. Nascia mais um filho, outro, outra e mais outra...
 
Trabalhávamos demais e não conseguia mais sentir o teu amor de esposa. Confesso que por momentos de fraqueza, buscava algo a mais fora de casa, erro meu. Então meu pai morreu e herdei mais de um quilômetro de terrenos onde tínhamos começado nossa união, havia até uma chácara junto. Adorava aquela cidade e montei uma espécie de venda e bar lá de novo. Dei um terreno para cada filho. Por determinado período os próximos a nós nos olhavam com certa inveja, chegando até a dizer que éramos ricos.
 
Bem, posso garantir que fiz várias coisas que quis. Comprei um caminhão e ia junto com um filho até a Argentina levando carga de banana. Também comprei um Táxi, um TL azul lindo que acabou sendo destruído e desprezado pelo próprio sangue. Comprava e vendia imóveis, Biguaço, São José, Barreiros, Coloninha, Estreito, Coqueiros. Claro que não sou um santo, também aprontei bastante, mas queria mesmo o apoio da minha mulher. Sempre fiz tudo que ela pedia, do meu jeito, mas fazia. Fomos envelhecendo, os filhos crescendo e o patrimônio diminuindo porque ninguém mais queria tocar as vendas.
 
Ficamos quase a vida inteira na casa do Estreito, depois voltamos pra Biguaçú e ao final de nossas vidas, estávamos no bairro da capital de novo. A nossa relação se tornava cada vez mais difícil, eu tentava te agradar e tu só reclamavas. Ia para os bailes dançar e jogar dominó na praça pra me distrair. Não paravas de me criticar por nada, e foi ficando tudo cada vez mais difícil pra mim. Eu com esse meu jeito meio 'brucutu' não conseguia te amar como realmente queria. Tinha as minhas maneiras de brincar, mas jamais aceitavas. Foste ficando insuportável e me machucavas demais já.
 
Então minha cabeça começou a ficar ruim e sentia que não gostavas de ficar ao meu lado ainda mais naquela situação. Tentavas envenenar mais ainda a minha cabeça contra os filhos como sempre fizesse. Queria mesmo passar o resto da minha vida ao teu lado, mas era impossível. Tive sorte de ter filhos que me acolhessem e me tratassem bem até o meu último suspiro. Quanto amor recebi. Uma época me tornei bem choroso e caía em lágrimas por qualquer demonstração de afeto que faziam por mim. Falava cada vez menos, parei de andar gradativamente, até que parei de comer. Lembro que as últimas pessoas que chamei, foram meu neto e meu irmão.
 
Me levaram ao hospital e foi lá que passei meus últimos vinte dias de vida. Pra quem sempre desejou morrer dormindo, sem sofrimento, não foi a coisa mais esperada. Contudo, recebi de quatro pessoas uma dedicação tremenda. Estes não me deixaram sozinhos um minuto. Recebi tanto amor e afeto que meu último suspiro não foi de dor. Meu enterro foi difícil de ver. Tantos lá que derramavam lágrimas de remorso, outros se quer me amavam realmente. Agradeço aos meus estimados, de sangue ou não, que estiveram lá. Escrevendo daqui, só peço que Deus cuide daqueles que cuidaram de mim enquanto tinha vida.